Literatura

Não Verás País Nenhum

Ignácio
Brayan Carvalho
Escrito por Brayan Carvalho

A apatia do homem moderno, o efeito alienante das ditaduras e a crise ambiental levada às últimas conseqüências em romance de Ignácio de Loyola Brandão.

Responsável por revolucionar a estrutura do romance brasileiro (assim como James Joyce o fez em relação à literatura de um modo mais amplo), Ignácio de Loyola Brandão tem em Zero sua obra máxima, tanto pela impressionante desconstrução do texto literário quanto pelos temas desenvolvidos pelo autor. Selecionada pela revista Bravo! como um dos 100 livros essenciais da produção literária nacional, a obra foi lançada primeiro na Itália e só no ano seguinte no Brasil, em 1975. Proibida pela ditadura militar, foi traduzida, após a censura, para diversos idiomas, além de receber outras onze edições.

Seis anos após Zero e cinco após Dentes ao Sol – romance de pouca expressão na obra do autor – Ignácio lança Não Verás País Nenhum, livro que pode ser inscrito sem a menor dificuldade entre os títulos sci-fi da literatura brasileira por incorporar elementos comuns às obras de Ray Bradbury e George Orwell, por exemplo. No entanto, limitá-lo ao gênero de ficção científica é um erro grave.

Não Verás País Nenhum em nada se aproxima de Zero no que diz respeito à sua estrutura: é um romance linear que não promove, em momento algum, a desconstrução textual ou a utilização de elementos atípicos à literatura (recursos usuais no romance de 75): convencional pela forma, o título de 1981 confia a seu conteúdo todo o potencial narrativo de sua trama. A premissa de Não Verás País Nenhum, entretanto, se mostra mais urgente que a de Zero.

Em linhas gerais, a trama se passa na cidade de São Paulo num futuro não muito distante da década de 80 (o que pode ser, inclusive, o ano de 2011). Regidos por um governo totalitário chamado de Esquema, os brasileiros estão reduzidos a guetos nos quais a circulação é permitida através de fichas de identificação, podendo ser presos em caso de descumprimento da ordem. Além disto, as pessoas têm de suportar o ápice do aquecimento global causado, entre outros fatores, pela transformação da Região Nordeste e da floresta amazônica em desertos (!).

Nesta quimera política, social e ambiental, o leitor é apresentado a Souza, ex-professor de História afastado da sala de aula por recomendação de órgãos internos do Esquema. Souza não representa uma real ameaça ao regime, mas ocupa posição intelectualmente privilegiada e, consequentemente, perigosa aos interesses federais. Empregado em uma repartição em que seu trabalho se resume a conferir números em planilhas, Souza inicia o romance já transformado em uma vítima passiva do sistema que o cerca.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Souza, o livro apresenta, aos poucos, situações cada vez mais bizarras: não há mais alimentos orgânicos, apenas sintéticos, fabricados por empresas multinacionais; as mulheres se tornaram estéreis graças à química destes e de outros produtos; plantas e animais foram extintos; aromas naturais, também fabricados, são vendidos em frascos; algumas pessoas receberam deformações dos mais variados tipos em decorrência do contato com o lixo produzido pela população – isso só para citar alguns exemplos do cenário dantesco em que o protagonista está inserido e que vai sendo, aos poucos, revelado por ele mesmo de maneira objetiva e didática, como se desse uma aula de História.

não-verás-país-nenhumApesar do realismo urgente de seu texto e do escancaramento dos efeitos naturais e químicos na população, o autor se permite inserir um único elemento tratado como incógnita na trama: em determinado momento da narrativa Souza se vê com um furo na mão, sem, no entanto, sentir dor ou tê-la sangrando. O fato, assimilado como natural por quase todos os personagens secundários, provoca em Souza divagações a respeito da causa do aparecimento do furo, ou dos motivos para ter sido marcado desta forma. O vazio literal de sua mão passa a valer, também, como metáfora de sua condição existencial e do próprio Brasil do livro.

Não bastasse todo o desconcerto causado pelo painel que o leitor é obrigado a digerir, o autor paulista encontra espaço em sua narrativa para contar uma atípica e solitária história de amor que renderia outro livro por si só. Souza, o anestesiado protagonista, vê sua vida mudar radicalmente de inúmeras maneiras, mas a que mais o afeta e ocupa espaço na trama é o afastamento de sua esposa, Adelaide. É como se o autor dissesse, através do personagem, que a perda do referencial de país pode ser admitida tanto no campo da literariedade quanto no campo metafórico.

Adelaide é, de fato, o país de Souza, e isto talvez justifique sua apatia social e política. A aparente ordem de sua vida conjugal é o que o estabiliza no mundo, é o que define seu comportamento e lhe dá significado. Ignácio conduz magistralmente esta linha de reflexão de seu protagonista ao longo da trama, evidenciando que o discurso pouco elaborado de seu narrador esconde, na verdade, profundas reflexões sobre o amor, sobre o companheirismo, sobre o conhecimento (ou não) do outro. A São Paulo do livro, no entanto, só faz reforçar a negativa, evitando e oprimindo a interação humana.

O cidadão típico do Brasil imaginado pelo escritor perdeu a capacidade de ler o mundo, de interpretar símbolos. Esta subtração pode ser entendida como reflexo do ser humano enquanto agente falho no estabelecimento da comunicação, mas é marcada também pela atuação do Esquema que, ao substituir os instrumentos participativos de controle social por instrumentos impositivos da ordem social, chega ao ponto de excluir a palavra escrita dos meios sociais. Fica-se sabendo, portanto, que mídias impressas são proibidas e toda informação é transmitida e assimilada através de símbolos, imagens, desenhos: elementos que, para o autor, reduzem o ser humano a um leitor mecânico de dados, limitado e insensível.

Apesar de um ou outro momento inverossímil na metade final de sua trama, Não Verás País Nenhum é um contundente estudo de como os regimes militares (principalmente o do Brasil) contribuíram para o empobrecimento de alma da população; de como a humanidade se tornou tão metaforicamente estéril quanto as mulheres, literalmente, no romance; de como seu protagonista mimetiza o comportamento do cidadão brasileiro moderno e de como o ser humano, em sua essência, necessita de uma nação para representá-lo – seja ela geográfica, intelectual ou emocional.

Curiosidade: o próprio Ignácio de Loyola Brandão possui um livro de contos chamado O Homem do Furo na Mão e Outros Contos, no qual a mesma situação vivida por Souza em Não Verás País Nenhum (descobrir um furo na mão sem saber como surgiu) é narrada. O conto, apesar de repetir as mesmas situações vividas por Souza no romance – reproduzindo até mesmo parágrafos e diálogos inteiros –, funciona de maneira independente, e se ocupa em usar o furo na mão como uma metáfora do preconceito, de como a sociedade hostiliza aquele que é diferente.

Leia um trecho do livro:

Durante certo tempo comentamos a multidão que crescia, dia a dia, na cidade. Comentávamos, tranquilamente, sem medo, sem realizar o que estava se passando. Era uma constatação dos dias que corriam. Não me preocupava de onde tais pessoas vinham, ou porque estavam vindo. Ou quem eram.

As ruas iam se enchendo, cada vez mais intransitáveis. Vieram os primeiros grandes problemas de circulação. E de repente, os meus rostos, aqueles que eu via diariamente, quase que às mesmas horas, em situações idênticas, passaram a desaparecer. Como se esvaíssem em plena neblina.

Névoa, penumbra, eram as sensações que me tomavam, quando encarava a multidão, compacta, fechada, mais fechada. Andávamos ombro a ombro, rosto a rosto, e ninguém se encarava. Olhavam para os lados ou para o chão. E então, apareceram os mutilados, os carecas. Os deficientes, os de olhos pendurados.

Poucos, a princípio. Depois engrossaram fileiras. A polícia apanhava, levava. No entanto pareciam se multiplicar. Quando criança, li uma história, havia uns bichinhos, uns tais shmoos, que adoravam os homens. Morriam ao ser acariciados, e se reproduziam de segundo em segundo.

Pois isto me lembrou os cegos, os carecas, os mutilados, os pele-brancas escamosos que tomaram a cidade. Os Civiltares fizeram o que puderam, até instalaram as barreiras eletrônicas que nos separam hoje dos Acampamentos Paupérrimos. Tais coisas eu não podia contar a Adelaide.”

Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Codecri, 1982. 356 págs.

Sobre o autor

Brayan Carvalho

Brayan Carvalho

Professor de Literatura, perguntador profissional e leitor obsessivo. Gosta de teorias, questiona as práticas e busca pelos princípios.

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